Vamos postar nesta seção os textos necessários para nossas aulas. Começamos com alguns textos que irão servir como base para as discussões dos conteúdos referentes à AV2 – ou/nov 2007:
AULA 09 DE OUTUBRO – A REPORTAGEM ASSISTIDA POR COMPUTADOR (RAC)
Vejam o texto disponível na página do GJOL – Facom/Ufba:
“O ciberespaço como fonte para os jornalistas” (arquivo em pdf), do professor Elias Machado. Na sala de aula virtual, há ainda um texto de “como arquivar notícias”. Imprimam, leiam e tragam o material para a sala, para facilitar o trabalho em sala. Os textos abaixo também servirão para nossas discussões:
Jornalismo de Precisão – História e Conceito
Por Lara Viviane Silva de Lima*
“Toda a nossa ciência, comparada com a realidade, é primitiva e infantil – e, no entanto, é a coisa mais preciosa que temos.” Albert Einstein (1879-1955)
A partir da década de 80, grandes jornais americanos passaram a fundamentar suas notícias e reportagens em pesquisas próprias, em parte por desacreditarem nas pesquisas solicitadas por políticos (Meyer, 1993, p. 28). Baixas tiragens também levaram os editores desses jornais a procurar o aperfeiçoamento do produto jornalístico por meio de cobertura mais científica (Idem, p. 31). O começo dessa busca coincidiu com o acesso, pelos jornais, a computadores e bases de dados, nos anos 70. Em 1989, The Washington Post, USA Today, Los Angeles Times e The New York Times inauguraram suas seções de bases de dados, conforme relata José Luis Dader (Idem). Aplicando ferramentas do Jornalismo de Precisão, alguns veículos tiveram suas reportagens premiadas com o Pulitzer: Em 1985, o Dallas Morning News obteve tal reconhecimento pela reportagem em que denunciou a segregação racial em habitações públicas do Texas e, três anos depois, o prêmio foi concedido ao Atlanta Constitution, que provou haver discriminação entre raças nos empréstimos hipotecários feitos pelo governo federal (Idem, p. 45).
Meyer publicou o primeiro livro sobre o assunto, Precision Journalism. A Reporter’s Introduction to Social Science Methods, em 1973. Muito antes de influenciar a grande imprensa americana, as idéias de Meyer provocaram mudanças no próprio meio em que foram geradas, o acadêmico, e nos jornais de médio porte onde foram testadas. Segundo Meyer, tudo começou com o curso que fez na Universidade de Harvard entre 1966 e 1967, sobre métodos empíricos de investigação social. Neste último ano, teve oportunidade de aplicar tais métodos na cobertura jornalística dos distúrbios de rua de Detroit, reportagem publicada pelo Detroit Free Press (Idem, p. 22). A pesquisa feita para essa reportagem derrubou as duas teorias até então aceitas sobre os atos de vandalismo na cidade. Ao contrário do que se pensava, as depredações não partiam predominantemente de pessoas com baixo nível de instrução e de negros oriundos do Sul (Idem, 43). Com o cruzamento de dados, o Detroit Free Press “descobriu que as pessoas com nível superior haviam participado dos distúrbios em percentagens similares às que não tinham chegado a completar o segundo grau” (Idem). A experiência havia mostrado que os métodos de investigação social são aplicáveis ao jornalismo.
Segundo Meyer, Tal como foi originalmente concebido, durante os movimentos de protesto social dos anos 60, o Jornalismo de Precisão era uma via de ampliação do equipamento instrumental para que o repórter convertesse em material de indagação minuciosa os assuntos até então inacessíveis ou somente acessíveis de maneira muito vaga. Esta forma jornalística resultou de especial utilidade para escutar a voz dos grupos dissidentes e minoritários que estavam lutando pelo reconhecimento de uma representação (Idem, p. 294). Os experimentos de Meyer resultaram num manuscrito entitulado provisoriamente A aplicação dos métodos científicos de investigação social e psicossocial na atividade jornalística (Idem p. 22).
Foi neste formato que as conclusões obtidas pelo jornalista foram reproduzidas em fotocópias e difundidas entre estudantes das universidades de Dakota do Norte e Óregon. O nome “Jornalismo de Precisão” foi empregado por Everette Dennis, em 1971, para explicar aos estudantes desta última instituição o “novo jornalismo” proposto por Meyer. De acordo com o próprio Meyer, Dennis usou o adjetivo “de precisão” para diferenciar este jornalismo, baseado no método científico, daquele “novo jornalismo” de enfoque literário que tornou famosos jornalistas comoTom Wolfe nos anos 60 (Idem). “Decidimos que o termo descritivo de Dennis era o que melhor soava e, assim, o adotamos”. Em seguida à publicação do manuscrito, sob o título Precision Journalism. A Reporter’s Introduction to Social Science Methods (1973), outros autores trataram do assunto. McCombs, Shaw e Grey publicaram Handbook of Reporting Methods, em 1976 (Idem, p. 12).
Em parceria com Weaver, McCombs também publicou, quatro anos mais tarde, o artigo “Journalism and Social Science: A New Relationship?”. Em 1981, McCombs, Shaw, Cole e Stevenson divulgaram o Jornalismo de Precisão na Europa, publicando na revista Gazette o artigo “Precision Journalism: An Emerging Theory and Technique of News Reporting”. Três anos depois, este artigo foi publicado pela revista italiana Problemi dell’ Informazione (Idem).
De acordo com Meyer, o Jornalismo de Precisão foi bem recebido no ambiente acadêmico. Assim como jornais e revistas, escolas de jornalismo americanas criaram departamentos de Jornalismo de Precisão ou de Database Jornalism (Idem, p. 12). Aos estudantes e professores de jornalismo, o Jornalismo de Precisão Demonstrava a aplicabilidade dos métodos científicos de investigação social aos problemas reais mais característicos da elaboração de notícias numa sociedade crescentemente complexa (Idem p. 27).
Entre os profissionais, contudo, a aplicação do Jornalismo de Precisão encontrou forte resistência, sobretudo devido a uma compreensão estreita dos ideais de objetividade dos jornalistas. Para os que pregam a objetividade no jornalismo, não cabe aos repórteres e editores assumir posição diante dos fatos, mas apenas apresentar diferentes opiniões sobre os temas contraditórios. Partindo dessa premissa, muitos jornalistas concluíram que os meios de comunicação não devem fazer pesquisas de opinião, e sim publicar as sondagens feitas por outros órgãos (Idem p. 28).
Meyer contra-argumenta que “o modelo da objetividade foi desenhado para um mundo muito mais simples, onde os fatos desnudos poderiam falar por si mesmos” (Idem). Tanto esse modelo é inadequado que, já nos anos 60, “a frustração com o inalcançável ideal da objetividade” levou parte dos jornalistas a aderirem ao “novo jornalismo”, aquele de caráter literário. Na opinião do autor, apesar de os esforços nesse sentido serem válidos, a literatura não oferece a disciplina que o jornalismo requer. Uma solução melhor consiste em aproximar o jornalismo do método científico, incorporando os poderosos instrumentos de que a ciência dispõe, tanto para a coleta como para a análise de dados, assim como sua busca sistematizada de uma verdade verificável (Idem. p. 29).
Após ter ministrado 16 cursos acadêmicos sobre o tema, Meyer publicou, em 1991, seu segundo livro sobre Jornalismo de Precisão, The New Precision Journalism, que traz exemplos práticos da aplicação de metodologias das ciências sociais, como a estatística, no jornalismo. Meyer contou com o apoio do jornal USA Today e com os serviços informativos da CBS para testar a teoria em experiências jornalísticas (Idem . p.23). Neste livro, o autor trata também da Reportagem Assistida por Computador (Computer Assisted Reporting,), variante do Jornalismo de Precisão que prevê a realização de reportagens a partir de informações de bases de dados. Para usar este recurso, os jornalistas têm que saber de que forma acessar e como interpretar informações dessa procedência.
Segundo José Luis Dader, tradutor de The New Precision Journalism para o espanhol, a Reportagem Assistida por Computador (CAR), ou “jornalismo de rastreo de dados por computador é, sem dúvida, o que mais espetacularmente está crescendo, dentro da ampla gama de atuações de precisão” (Idem, p. 13). A legislação americana, favorável ao livre acesso às bases de dados custeadas pelo Estado, contribui para isso. Mesmo os pequenos jornais, que a princípio não teriam condições econômicas para dispor da tecnologia necessária, contratam os serviços de escolas de jornalismo equipadas com máquinas sofisticadas (Idem). Os principais argumentos dos que desaconselham a adoção do Jornalismo de Precisão pelos países iberoamericanos são as legislações que dificultam o acesso às informações e a inexistência de bancos informatizados de informação pública (Idem, p. 16). “Essa é grande cartada para dizer que se passarão décadas antes que possamos imitar trabalhos como os citados no livro apresentado”, antecipa Luis Dader. Ele esclarece que: A primeira e fundamental ferramenta do Jornalismo de Precisão é a imaginação e a segunda, a aprendizagem de certas regras – tampouco demasiadas – da metodologia científica. Só com ambas pode-se abordar uma infinidade de projetos de pressuposto insuficiente, reduzido volume de dados e acesso aberto a qualquer curioso.
O Jornalismo de Precisão não é só para empresas jornalísticas ricas e sociedades ultratecnologizadas, mas também para qualquer jornalista anticonvencional e anti-rotineiro com um mínimo de treinamento nos rigores da análise sistemática de dados objetivados (Idem, p. 16). A realidade que Luis Dader observa nos países europeus é comparável à brasileira. Ele identifica “evidências isoladas de trabalhos de precisão em diferentes meios europeus, mas, salvo o que pudesse contribuir alguma investigação hipoteticamente em curso, o panorama europeu ainda está muito distante de oferecer um movimento de perscepção coletiva e atuação generalizada nesta linha” (Idem, p. 13).
Na Espanha, jornalistas publicam reportagens de relativa precisão, mesmo sem ter consciência da sua classificação como Jornalismo de Precisão (Idem. p. 14). No Brasil esse direcionamento do jornalismo ainda é pouco conhecido, até porque nenhum dos livros sobre o assunto foi traduzido para o português. Acreditamos que muitos jornalistas se aproximam dos ideais do Jornalismo de Precisão, na medida em que se empenham em apurar informações com rigor, com o objetivo de melhorar o produto final. Alguns deles certamente usaram métodos científicos na elaboração de suas matérias antes do surgimento de qualquer teoria a respeito. Uma lista de discussão sobre Jornalismo de Precisão, criada recentemente na Internet, é coordenada pelo jornalista Marcelo Soares, repórter, na época, do Corrêio do Povo de Porto Alegre que desenvolvia monografia sobre o tema na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (URGS). Apesar de este conceito ser praticamente desconhecido no país, Marcelo acredita que “existe lugar para o Jornalismo de Precisão no Brasil”; o fato de as redações dos jornais e a maioria dos departamentos da administração pública estarem informatizados facilitaria esse processo. A opinião de Soares é reforçada pela opinião do próprio Meyer, que foi contatado pelo brasileiro via e-mail: Uma democracia em desenvolvimento cria forte demanda tanto por medições da opinião pública quanto por jornalismo investigativo, logo o momento é excelente. Ficaria mais otimista quanto às possibilidades se o sistema não fosse tão hostil às inovações. A única exceção à regra de que as empresas de comunicação brasileiras ignoram o Jornalismo de Precisão é a Folha de São Paulo.
Segundo Soares, dois jornalistas da organização mexicana Periodistas de Investigação, filiada à Investigative Reporters and Editors, visitam o jornal três vezes por ano para difundir a Reportagem Assistida por Computador (CAR). “Porém, até hoje apenas um repórter deles, chamado José Roberto de Toledo, demonstra intimidade com o uso do computador como ferramenta de reportagem”, afirma Soares, que ainda não publicou seus textos sobre o assunto. Segundo Meyer, Jornalismo de Precisão é a aplicação de métodos científicos de investigação social e comportamental à prática do jornalismo (Meyer 1993, p. 14). De acordo com Luis Dader, os métodos referidos por Meyer são a sondagem ou pesquisa de opinião, o experimento psicossocial e a análise de conteúdo. No ponto do jornalista espanhol, também autor de trabalhos sobre o assunto, o Jornalismo de Precisão excede o campo da sociologia. Outras áreas da investigação científica já foram abordadas com os métodos do Jornalismo de Precisão. Exemplifica com a investigação médica ou biológica e estudos sobre meio ambiente. Luis Dader resume que “é o controle e a indagação sobre o método, em definitivo, o que permite falar de Jornalismo de Precisão” (Idem, p. 15).
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Este texto foi publicado em SALA DE PRENSA (http://www.saladeprensa.org – No. 21, julho de 2000, Ano III, Vol. 2).
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Jornalismo de precisão e RAC
Nilson Lage (*)
O tipo de sociedade que está se desenhando (a menos que a fúria guerreira consiga acabar com ela) dará valor especial ao conhecimento substantivo, àquele que se expressa em sentenças que ou são verdadeiras ou falsas, em valores que podem ser confirmados, naquilo que se sabe ou de que se têm indícios relevantes. Mesmo o que não pode ser desmentido – e, portanto, é possível – terá que ser provável para ser admitido.
Há imenso cansaço da retórica, que se expressa na abstinência eleitoral (onde o voto não é obrigatório) e na incredulidade das pessoas bem-informadas com relação à publicidade vazia e à propaganda enganosa. Carros de luxo, com o valor medido como símbolo de status, chamam a atenção, mas deveríamos estar atentos àquelas pessoas que, podendo comprá-los, não compram porque, afinal, não oferecem boa relação custo-benefício. É muito mais gente do que parece.
Quem freqüenta o supermercado observa o número dos que preferem sucos de frutas a refrigerantes, laranjas a bebidas gasosas. Na lanchonete, desprezam os sanduíches naturais de atum enlatado com milho em conserva. Compram roupas básicas. Vivem dentro de suas posses. Procuram manter-se informados e se aperfeiçoam em seus ofícios. Não ficam nada eufóricos ao saber que os bombardeios são cirúrgicos e que os aviões não podem ser vistos no radar. Não se sentiram especialmente motivados a ver Guerra nas Estrelas 4 ou 5.
Lido com jovens há muito tempo. Ao contrário do que parece, a maioria – e, dentre esses, os mais capazes – é de pessoas sérias, bem diferentes da imagem que se faz deles. Creio honestamente que assim serão os líderes do futuro.
O jornalismo de precisão pretende atingir essa gente. Descobrir o que se oculta por debaixo do preconceito e do palpite. Faz isso com técnicas científicas aplicadas à vida social, com ênfase em métodos estatísticos e cruzamento de valores. Envolve um tanto de investigação, mas o próprio planejamento da atividade investigativa resulta de simulações e hipóteses que se formulam com base em indícios e dados processados.
Jornalismo de precisão e uso de computador se complementam – na verdade, a essa altura, se confundem. E, ainda citando o professor Meyer, já não há mais motivo para se falar em reportagem assistida por computador, pelo mesmo motivo que não se fala em design assistido por computador ou contabilidade assistida por computador.
Naturalmente, algumas técnicas de jornalismo de precisão poderiam ser aplicadas ainda que sem computador. É o caso do Método Delfos, em que se entrevistam especialistas sobre tema polêmico, editam-se as respostas, volta-se aos especialistas que as reexaminam, até que se chegue a um consenso ou a um balizamento de opiniões diferenciadas. Mas, mesmo aí, a internet dá imensa ajuda e amplitude ao trabalho.
Troca sem barreiras
Pesquisas de survey (baseadas em questionários), cruzamento de dados estatísticos em planilhas e bancos de dados, utilização de bancos de dados para organizar e acumular informações em uma área de cobertura – nada disso oferece dificuldades. A matemática exigida está no nível de qualquer curso básico de graduação em informática e estatística.
Só que, para aplicar esses métodos, os jornalistas vão precisar saber um pouco dessas matérias de que, tradicionalmente, se afastaram. Alguns já sabem. O repórter Caco Barcelos, disseram-me, montou um excelente banco de dados sobre marginalidade em São Paulo reunindo informações que nem a polícia tem. A Folha de S.Paulo procura estimular esse tipo de atividade e importa especialistas estrangeiros para falar sobre o assunto – embora ela mesma, a Folha, apóie sua política editorial mais em articulistas selecionados do que em repórteres diligentes. A Rede Globo de Televisão mantém profissionais trabalhando na alimentação de banco de dados e pesquisando sua utilização em diferentes circunstâncias, como nas épocas de eleições e em outros grandes eventos de interesse nacional. Há no Brasil dezenas de jornalistas webmasters, com domínio dos programas, recursos da máquina e métodos de gestão de sítios da internet.
Na essência, não há dificuldade alguma em desenvolver esses métodos, nem contradições de fundo. Jornalistas que cursam pós-graduação em disciplinas da área de Gestão do Conhecimento na Universidade Federal de Santa Catarina têm encontrado surpreendentes semelhanças entre os princípios básicos do jornalismo (por exemplo, o lead, ou a busca de linguagem precisa com as palavras e expressões ambíguas ou vagas das línguas naturais) e conteúdos temáticos de disciplinas como Inteligência Competitiva, Robótica e Inteligência Artificial.
Não é, assim, um problema de transferência de conhecimentos nem de importação de técnicas. A questão é mais simples e, ao mesmo tempo, mais séria. Ela envolve a mudança de mentalidades e a convergência entre o ser político, que o jornalismo continuará sendo, e a instância científico-tecnológica. Esse é o sentido da sociedade de informação, se ela vier a ser implantada.
Quanto à viabilidade de tal desdobramento, tenho dúvidas. Sempre me vem à cabeça uma citação de Norbert Wiener, um dos pais da Informática, em Cybernetics or control of communication in the animal and machine, de 1948:
“A sociedade da informação só pode existir sob a condição de troca sem barreiras. Ela é incompatível com o embargo ou com a prática do segredo, com a desigualdade no acesso à informação e sua transformação em mercadoria.”
(*) Jornalista, professor titular da UFSC

